
D. Raulina era uma mulher como poucas. Ímpar mesmo e quem a conheceu sabe disso; quem não teve a oportunidade de conviver com ela, que pena!
Essa senhora tinha 80 anos passados e bem vividos quando ficou encantada para sempre. Entretanto, cotidianamente, era uma menina cheia de vida que nunca deixou de nos cativar e surpreender. Aliás, enlevo e pasmo pela vida eram as suas marcas registradas.
Tinha paixão por viver. Sim! Ela era ávida pela vida. Tentava absorvê-la por todos os poros. Era muito intensa. Suas tristezas, como suas alegrias, eram desmedidas. Não sabia impor o não de forma tranquila. Isso lhe causava um grande sofrimento. Tanto que essa dificuldade, não poucas vezes, lhe acarretava fortes crises alérgicas. Mas sabia sair das situações. Tinha um jogo de cintura tamanho que até quando estava brigando a pessoa ficava em dúvida se era isso mesmo que ocorria. Escorria mel em seus lábios.
Era naturalmente apaixonada pelas pessoas. E não fazia distinção. A todos tratava com desvelo, outra característica forte sua. Muito carinhosa e amorosa, era puro coração.
Tinha olhos benéficos e um olhar infantil. E também possuía um quê de ingenuidade; apesar de sagaz. Brejeira e perspicaz, enxergava além das intenções, apesar de se fazer de boba muitas vezes.
Ela tinha o riso fácil e a malícia como defesa. Um coração festivo, por natureza. E bondoso, por opção. Ela se exercitava nesse mister.
Sempre que via alguém pela primeira vez era certo que ela descobriria algum traço de beleza nessa pessoa, ou, dependendo, muitos, mesmo que o senso comum não destacasse nada. Ela era especialista nisso. Fazia questão de acentuar as eventuais características estéticas e de caráter das pessoas. Agora, se a pessoa fosse efetivamente bem dotada pela natureza, aí então essa pessoa era lembrada a todo momento com a maior admiração.
Era absurdamente romântica. Tinha uma visão cor de rosa do amor. Para ela, a relação entre duas pessoas que se amavam era sagrada. Não por causa das convenções mas pelos elos que ligavam um ao outro. E quando um relacionamento chegava ao término, e, por acaso o fim tivesse sido proposto de forma unilateral, ela sofria terrivelmente por quem tinha sido deixado. Qualquer relação ela tratava como se fosse uma novela. Da mesma forma ela vivia as cenas de novela ou de filme como se fossem reais. Àquelas então mais carregadas de emoção ela passava dias processando-as. E as revivendo. Sofrendo, se esse fosse o mote. E rindo, até sozinha, se isso fizesse parte do roteiro. Como também relembrava quase diariamente o seu marido muito amado e querido, e chorava a sua perda como se ele tivesse morrido na véspera e não há mais de 36 anos.
Era simples. Não tinha estudo formal, mas era inteligente a dona. De uma sabedoria que intrigava. Era PHD em conhecimentos da vida. Também em superações e dar a volta por cima.
A inquietude e a curiosidade faziam parte de sua personalidade. Era realmente uma mulher muito interessante!!!
Sua casa era o seu palácio e reduto. Um lugar caloroso e sempre de portas abertas. Ela era muito querida e tinha muitos amigos. Verdadeiros. Que a amavam de coração. Nunca foi amarga, nem mesmo não tendo a vida fácil. Essa realidade não teve mudança nem depois de casada. Recrudesceu, na verdade, quando ficou viúva. Nessa ocasião, ao contrário, restou-lhe como única herança ter sob sua responsabilidade seis filhos menores de idade. E continuou o seu trajeto, criando-os e os educando sozinha. Talvez, e até em decorrência disso, tinha um orgulho danado de tudo que conseguiu com muito esforço ter na vida. Inclusive a educação dada aos seus seis filhos com muita dificuldade, luta, retidão e exemplo. Mas ela foi recompensada. Teve a felicidade de ver todos se transformarem em adultos e pessoas do bem. E para os quais ela abundava afeto, carícias e cuidados.
Vaidosa ao extremo, tinha um cuidado exagerado com os seus cabelos, tanto assim que, até nas suas horas finais, preocupou-se com eles e exigiu que os pintassem. Não sem razão: queria fazer boa figura e estar bonita quando se encontrasse com o seu inesquecível companheiro no céu.
Era comovente como gostava de cafuné, doce de leite e de passear. Esse último era tão acentuado que ela, se por ventura fosse convidada e tivesse fazendo comida, não importava em que ponto estivesse o cozimento, desligava o fogão e ia para o carro dar uma voltinha. Perto ou longe isso não tinha relevância nenhuma. O importante era satisfazer/alimentar os seus sentidos.
Com ela aprendi, entre inúmeras outras coisas, a receber e agradecer de forma diferente quando ganhar algum presente. (Nesse particular, ela parecia criança. Adorava-os!!!) E ao invés do meu usual e sem graça: “- Ah! Não precisava se preocupar.”, ela me ensinou esta outra forma marota e gentil:
“-Obrigada! Adorei! Vou rezar para Deus lhe dar mais para você poder me presentear mais.” Até hoje passo para frente esse ensinamento em sua homenagem, pois o considero muito peculiar e sincero.
É um fato, ela sabia transformar como ninguém um limão em uma limonada. Suíça! Tinha um senso de humor apurado e a sua companhia era agradabilíssima. Quantas vezes, assistindo televisão, ela soltava uma de suas tiradas engraçadas. Ao ver alguém com jeito enjoado, por exemplo, ela dizia:
“- Meu Deus! Essa mulher tem a cara de doce de leite talhado.” Ou algo mais ou menos nesse teor.
Pois é, Minha Amiga, eu sinto saudades! Muitas! E jamais a esquecerei, pois com a senhora aprendi muitas, muitas coisas, mas o principal foi o conjugar o verbo amar. Sem condições!
Minha querida, vejo-a quase diariamente nos rostos de pessoas pela rua, seja pela cor da pele, pelo penteado, roupa ou por qualquer detalhe que me faça relembrá-la com doido carinho. Mas quer saber a verdade? A senhora nunca nos deixou e nunca nos deixará, pois está em nossos corações para sempre! Sempre, sempre!
Escrito por Anitha em 11.01.10 em homenagem a 1 ano de seu falecimento