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22 fevereiro 2020

Além do óbvio...

Era uma vez, num reino não muito distante, uma pessoa aficionada com o cinza. Para ela só existia essa cor. Por mais que se tentasse lhe mostrar que o  matiz ia além, ela se recusava a se abrir para acolher as outras cores em seu coração.
Essa resistência a impedia de enxergar as várias possibilidades do mundo colorido. E, claro, seu universo se tornava bem restrito.
Era triste, porque não se notava nenhum esforço de sua parte para perceber o contraste, a abundância e nem a beleza da pigmentação da natureza. Ela simplesmente era incapaz e negava as evidências, apesar de não haver em sua estrutura física ou mental nada que lhe impedisse de deixar a coloração penetrar em sua vida. Tudo ao seu entorno tinha realce e multiplicidade de forma e de nuances, mas não pra ela. Seus olhos e sentidos não captavam tanta fartura. Ela havia se trancado para essa abundância - quem sabe o por quê? - talvez, por medo.
Assim, sem se questionar ou procurar compreender essa dificuldade em absorver todo o esplendor que a vida lhe oferecia, se fechava em copas e, feito um disco arranhado, garantia que só reconhecia aquela tonalidade sombria e melancólica. Essa atitude lhe empobrecia, ela reconhecia, porém não sabia como vencer aquele empecilho autoimposto há bastante tempo.
De vez em quando, uma fada muito branquinha, bem humorada e cheia de boas intenções, trazia-lhe, como incentivo e para lhe instigar, flores, paisagens e até textos, poesias e canções, para lhe demonstrar que havia um mundo esplêndido fora e dentro e que ela poderia expandir o espectro das cores, se quisesse, para o seu próprio ganho particular, para  sair da zona de conforto e daquele estreito círculo que a diminuía, deixava-lhe sem atrativos e sem conteúdos a oferecer e, sobretudo, enfeava a sua realidade e a restringia ao seu repetidíssimo termo monocromático.  
Então, a boa maga, apesar de se sentir frustrada com tamanha insistência dela na falta de repertório, persistia na ideia de lhe mostrar o quanto ela poderia se tornar mais interessante, rica e poderosa se permitisse deixar a luz invadi-la para, assim, refletir externamente uma criatura mais plena.
Pois é, nesta altura do campeonato, cabe a ela - só a ela - pensar, refletir e chegar à conclusão do que lhe convém, do que lhe pode ser acrescentado e lhe enriquecer. Se há interesse de sua parte em ultrapassar o óbvio, o conhecido e ousar cavar espaço para o diferente, para trazer graça e leveza a si e ao seu dia a dia e para que esta história possa caminhar para um final surpreendente, quiçá, feliz!
Tomara! Porque ela, respeitando o seu direito de escolha, não usará de seus poderes mágicos para fazê-la mudar de perspectiva, mesmo no fundo torcendo para que essa realidade tome um novo rumo, e essa teimosa abra de vez os seus semicerrados olhos! 
Escrito por Anitha em 9 de dezembro de 2019

21 fevereiro 2020

A correção

Lá em casa tinha um cinto de estimação. 
Ele era usado com parcimônia, contudo, com firmeza. E a força a ser empregada dependia do quanto o ato teria que ser corrigido. 
Claro, naquela época o pátrio poder era exercido naturalmente e de forma integral e não havia a ingerência do Estado na educação e criação dos filhos como vemos hoje. Aos pais competiam a função e a responsabilidade de entregar para a sociedade cidadãos bem formados com regras e princípios bem definidos e, para que isso se efetivasse, a eles cabiam, além do dever, a escolha dos métodos para cumprir essa obrigação. 
Éramos oito filhos, sendo cinco mulheres e três homens. Todos iguais nessa hora, pois não havia distinção de gênero. Quando era o caso de algum de nós receber uma reprimenda mais séria, somente o transgressor era conduzido para o quarto dos nossos genitores. A porta era fechada. Meu pai, que nos esperava lá dentro, ainda nos concedia a prerrogativa do benefício do perdão, se houvesse o reconhecimento e o arrependimento sincero do erro. Explicava-nos o motivo de estarmos ali e o que esperava de nós a partir daquele momento. Mas diante, às vezes, do nosso silêncio, da nossa  recusa em admitir ter errado ou por causa da gravidade da falta cometida, a cinta - a maledetta cinta - comia nossos bumbuns e pernas.
Apesar da seriedade, havia respeito e cuidado com o infrator. Ninguém podia assistir a punição e também, após, não era permitido rir ou zombar do insubordinado. A pena aplicada já era considerada o suficiente para lhe ativar a consciência e mantê-lo no caminho do bem. 
Mesmo sendo aplicado com o devido rigor, na maioria das vezes aceitávamos a repreensão com humildade, de cabeça baixa e lágrimas nos olhos, sabendo, no nosso interior, que tínhamos feito por merecer tal corretivo. Ali era acordado tacitamente que o nosso débito tinha sido zerado e nunca mais se tocava no assunto.
Eu intuia, desde muito pequena e sem conhecer nada da vida, que meu pai, o chefe da casa e o senhor absoluto das resoluções dessa área, era uma pessoa diferente e de muito valor. Ele não tinha curso superior e também não retinha nenhum conhecimento de psicologia ou pedagogia infantil, assim como minha mãe, entretanto ele possuia uma sabedoria e uma grandeza que lhe faziam dosar seus castigos e, mais do que isso, nos respeitar como indivíduos e validar nossa essência, procurando sempre adequar a falha cometida à justa correção.
Sou-lhe muito grata, admiro-o e o amo demais também por isso!