Ontem, fui
assistir ao filme francês Lulu, nua e crua.
Primeiro, tenho que dizer que amo
películas europeias, haja vista que elas na maioria das vezes são delicadas em
suas abordagens e, o que mais me agrada, econômicas em obviedade.
Esse filme não fugiu à regra. Além do
que os atores representam com excelência. Todos eles!
Ele conta de forma nada piegas a
transformação que se deu na vida de uma mulher passiva, distraída, infeliz e sem autoestima.
Dona de casa, sem sonhos e nem metas, é casada com um homem relapso, abusador e violento até mesmo verbalmente. É, também,
mãe de uma adolescente e de gêmeos do mesmo sexo de mais ou menos uns oito
anos.
Num dia qualquer, após uma fracassada
entrevista de emprego, em que foi rechaçada sem nenhum cuidado, ela perde, sem
que faça nenhum movimento para evitar, a condução que a levaria a mesma vida de
sempre.
Deixou-se ser guiada por esse
desencontro, para mais adiante encontrar o que mais precisava: a si mesma!
Com muito pouco dinheiro e sem
perspectiva, hospeda-se num hotel bem simples de uma cidadezinha interiorana do
litoral.
Lá, buscando respostas e aproveitando
a introspecção, sozinha diante da grandeza e mistérios do mar, conhece por
acaso aquele que lhe revela tudo o que ela ainda não sabe sobre a sua
beleza, sua sensualidade e as suas possibilidades como mulher interessante,
destemida, que possui o dom de amar e de bem querer. E, sem que faça nenhum
esforço, é correspondida.
Assim, ela e ele se permitem viver
uma incrível história de entrega, abandono e sintonia. Enamorados, são a todo tempo zelados
pelos dois irmãos, amorosos, mas desastrados, do homem que a despertou para uma
realidade que jamais ousara imaginar.
Até a hora que ela sente que deve
seguir em sua busca particular. Foge. Mas sem que transpareça em nenhum
instante dor ou confusão. É só um fato. Uma necessidade de ir atrás de suas
partes perdidas, fases, faces e facetas que ficaram pelo caminho.
Desprovida de qualquer recurso
financeiro, num ato de desespero, furta uma bolsa de uma velha senhora.
Entretanto, seu caráter e sua
correção não lhe autorizam tal ato e ela devolve o produto de seu desatino e
ganha uma amizade que fará diferença na vida das duas para sempre.
Paulatinamente, não obstante o
escasso tempo de convívio, elas constroem uma sólida, sensível e leve relação.
Duas solitárias que se confortam, se acolhem, se amparam, se divertem, crescem juntas!
Duas solitárias que se confortam, se acolhem, se amparam, se divertem, crescem juntas!
Ela, mais próxima de sua essência,
talvez por estar num adiantado processo de autoaceitação, se vê num espelho. Ou
seja, se reconhece numa moça desamparada que trabalha em um bar, onde é
desrespeitada, desvalida e mal tratada por sua patroa ranzinza e má.
Agora, mais forte, sutilmente tenta e
consegue vencer as resistências e mostrar para a funcionária ultrajada que as
chances de progredir como pessoa estão e estiveram desde sempre dentro dela, e
que, apoderando-se desse conhecimento e agindo a partir dai, o mundo também
poderia ser um lugar mais aprazível e melhor.
Num ritmo sem sobressalto, o enredo
vai se desenvolvendo e nos mostrando como o amparo, o amor e a amizade são
necessários e o quanto são poderosos para, impregnados na alma, possibilitarem,
através deles, o salto quântico de cada um.
A protagonista, sem máscaras e
confiante, vai se conscientizando, tomando posse e cada vez mais sendo ela.
Afinal, sabe agora o que quer, o que lhe satisfaz, como agir e quais são seus
anseios. Também, o que tem a oferecer, como e para quem.
Inteira, por isso mesmo corajosa,
volta para a sua casa, seu lar, levando consigo o seu novo eu e também, a
tiracolo, a recém-feita amiga anciã, que, num gesto de sobrevivência, joga a
sua vida amorfa para cima e se insere na realidade da outra.
É bonito o reencontro com a sua
filha. Não pela estética, mas sim porque as duas ousaram se abrir uma para a
outra, sem medo, sem proteção. Ambas, frágeis, se fortaleceram sendo elas
mesmas.
Já com o marido foi um
confronto.
Ela sabendo de si; ele a querendo
distante de quem ela era. Ela se mantém calma e direta. Ele, como todos os
fracos e covardes, não suporta vê-la tão segura e íntegra, e a agride
violentamente, fazendo-a desmaiar.
Sua velha amiga, pensando que ela
tivesse morrido, não suporta o choque, e morre.
O final, singelo como todo o enredo,
traz uma mensagem acalentadora do quanto os afetos são imprescindíveis. E, mais, o quanto as
escolhas feitas nos definem!
Belo filme! Recomendo!
Escrito por Anitha em 29 de outubro
de 2015



