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21 fevereiro 2020

A correção

Lá em casa tinha um cinto de estimação. 
Ele era usado com parcimônia, contudo, com firmeza. E a força a ser empregada dependia do quanto o ato teria que ser corrigido. 
Claro, naquela época o pátrio poder era exercido naturalmente e de forma integral e não havia a ingerência do Estado na educação e criação dos filhos como vemos hoje. Aos pais competiam a função e a responsabilidade de entregar para a sociedade cidadãos bem formados com regras e princípios bem definidos e, para que isso se efetivasse, a eles cabiam, além do dever, a escolha dos métodos para cumprir essa obrigação. 
Éramos oito filhos, sendo cinco mulheres e três homens. Todos iguais nessa hora, pois não havia distinção de gênero. Quando era o caso de algum de nós receber uma reprimenda mais séria, somente o transgressor era conduzido para o quarto dos nossos genitores. A porta era fechada. Meu pai, que nos esperava lá dentro, ainda nos concedia a prerrogativa do benefício do perdão, se houvesse o reconhecimento e o arrependimento sincero do erro. Explicava-nos o motivo de estarmos ali e o que esperava de nós a partir daquele momento. Mas diante, às vezes, do nosso silêncio, da nossa  recusa em admitir ter errado ou por causa da gravidade da falta cometida, a cinta - a maledetta cinta - comia nossos bumbuns e pernas.
Apesar da seriedade, havia respeito e cuidado com o infrator. Ninguém podia assistir a punição e também, após, não era permitido rir ou zombar do insubordinado. A pena aplicada já era considerada o suficiente para lhe ativar a consciência e mantê-lo no caminho do bem. 
Mesmo sendo aplicado com o devido rigor, na maioria das vezes aceitávamos a repreensão com humildade, de cabeça baixa e lágrimas nos olhos, sabendo, no nosso interior, que tínhamos feito por merecer tal corretivo. Ali era acordado tacitamente que o nosso débito tinha sido zerado e nunca mais se tocava no assunto.
Eu intuia, desde muito pequena e sem conhecer nada da vida, que meu pai, o chefe da casa e o senhor absoluto das resoluções dessa área, era uma pessoa diferente e de muito valor. Ele não tinha curso superior e também não retinha nenhum conhecimento de psicologia ou pedagogia infantil, assim como minha mãe, entretanto ele possuia uma sabedoria e uma grandeza que lhe faziam dosar seus castigos e, mais do que isso, nos respeitar como indivíduos e validar nossa essência, procurando sempre adequar a falha cometida à justa correção.
Sou-lhe muito grata, admiro-o e o amo demais também por isso!

2 comentários:

LUIZ CARLOS DA COSTA disse...

Costumo dizer para espanto de muitos, que meu falecido pai nunca me bateu. Talvez por eu ter sido filho temporão e haver entre nós uma grande diferença de idade. Bastava o seu olhar fulminante para que qualquer possibilidade de fazer algo não adequado, se esvaísse. Resumo o sistema de educação dele, como alguém que me ensinou a alcançar as coisas que estão no alto da “prateleira” lá podendo permanecer sem ter medo de cair. Hoje reconheço o nível das pessoas pela altura do degrau na qual seus pais a colocaram. Você, pelo relatado, deve a seu pai ter alcançado o topo e lá permanecido. Popularmente se diz que cada pessoa está no nível da sua prateleira.

Anitha disse...

Luiz Carlos:

Novamente, agradeço-lhe pela sua gentil visita e seu interessante comentário!
Bonita e poética essa leitura que você faz da educação recebida de seu pai.
Esse sentimento de respeito e segurança que ele lhe transmitiu e que lhe possibilitou uma formação amorosa e confiante, resultando nessa pessoa do bem e de caráter, que me parece você é. E,o principal,que é aquele que sabe dignificar e honrar o topo da prateleira alcançado!
Grande abraço

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Beijo,
Anitha