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27 dezembro 2020

Tempo...tempo...tempo...


Ontem, em uma conversa informal numa roda de amigos, um deles, o mais velho desse grupo, disse-nos que está tendo dificuldade para aceitar a sua idade numa boa. Ele está sofrendo visivelmente com a aceleração do tempo, que é como tem sentido que vem ocorrendo após ter completado 69 anos. Diz ele que o relógio, a partir dai, perdeu a lógica. E o senso das medidas!
Mas, conhecendo bem os seus hábitos e manias, pois nossa amizade já é de anos, sei que ele não tem feito nada para trazer renovação e arejar a sua realidade. Ao contrário. Ele, no seu dia a dia, tem se entregado a uma rotina maçante, repetitiva, e, dessa forma, vem perdendo o tesão de viver.
Assim, sem investir em novos caminhos e escolhas, é natural que lhe pese a limitação que a temporalidade costuma trazer. 
Convenhamos, a velhice é um marco cronológico e social que oferece possibilidades e perspectivas com características bem próprias, beirando a excelência, se houver bagagem e um repertório respeitável trazido do passado. E é necessário um peito aberto, disposição e vontade  para tornar essa fase interessante e instigante.
Na atualidade, temos tido inúmeros exemplos de pessoas que têm usado esse período para se autoconhecer, se descobrir, se superar e realizar metas e projetos que nos têm deixado de queixo caído, quando não com inveja “branca” pela ousadia e criatividade.
Falando exclusivamente de mim, neste estágio de existência que me encontro, com um pé lá e outro cá, sinto que há uma pulsão de vida que me impulsiona e que não tem coincidido em absoluto com a marcação vista no calendário.
Entretanto, como nada na natureza é linear, há ocasião que essa energia fica aquém para dar conta do meu sentir. E isso acontece, com certeza, quando as coisas de dentro deixam os meus olhos opacos e o cansaço toma conta, tirando o viço da minha pele e o brilho dos meus olhos.
Sorte que esses momentos são efêmeros. Sim. Logo vem com força e vicejante a época mais promissora. E - bendito seja! - o tempo do ajuste perfeito chega chegando. Fase e idade fazem as pazes e me sinto plena, agradecida por estar exatamente na estação do outono que me encontro. Com a vivência, aprendizado, ganhos e evolução que consegui contabilizar ao longo da minha jornada. Estou no ponto. Sinto-me animada e seguir adiante soa como um chamado divino que toca o meu coração com uma proposta sugerindo que tudo pode acontecer. Portas poderão se abrir e eu alcançar voos inimagináveis. Adiante, então, que venha o futuro!
Atrás, para me dar suporte e servir de referência, tudo que fui capaz de fazer, conquistar, doar, transformar e ser. Tudo bem. Tudo certo. Tudo no lugar.
A imagem refletida no espelho se amolda com perfeição à pessoa que me tornei e, o principal, é coerente com o conteúdo que consegui acumular.
Desta maneira, apaziguada e esperançosa pelas novidades que o porvir possa me trazer, sigo, confiante, pois há descobertas, um vir a ser ali onde nunca estive e que quero alcançar. Inteira, com a percepção e os sentidos intactos, para bem aproveitar do caminho que, por certo, está esperando eu percorrê-lo até onde e como Deus quiser!

Anitha, em 6 de dezembro de 2019


2 comentários:

LUIZ CARLOS DA COSTA disse...

Tempo, tempo, tempo... o que será de mim? O que vejo quando me olho no espelho é um reflexo perfeito do que fiz de mim. Meu livre arbítrio nem sempre me conduziu por caminhos adequados. Uma vez me perguntaram se eu pudesse voltar no tempo se faria tudo de novo igualmente. Eu prontamente respondi que não, ao que fui indagado se não tinha gostado da vida que havia levado até então. Firmemente disse que sim, mas se me fosse dada a oportunidade de voltar ao passado eu preferiria trilhar novos caminhos, conhecer novas paragens, pessoas, ciente de que cometeria novos erros e acertos, mas sempre convicto de que a vida que se nos apresenta é maravilhosa, uma dádiva recebida da qual somente nos compete vivê-la plenamente, a nosso juízo, sob quaisquer circunstâncias, trilhando nossos próprios caminhos. Como disse José Régio no seu poema Cântigo Negro: “Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos...” http://hakademos.blogspot.com/2015/06/cantigo-negro.html

Anitha disse...

Oi, Luiz Carlos!

Começo lhe agradecendo pela visita e também por enriquecer esse página com esse seu texto!
É um prazer ter você aqui!
Concordo com você que, onde nos encontramos atualmente, podemos atribuir às nossas escolhas de outrora e o que fizemos de nós nesse percurso.
Contudo, acredito que fizemos de nossas vidas o que tivemos condições dentro de nossas possibilidades, conhecimento, amadurecimento, consciência e o contexto em que estávamos inseridos na época.
Claro,hoje, vivenciando uma nova realidade, com o poder de olhar pra trás, com a bagagem adquirida e os recursos acrescidos ao longo da jornada, podemos até chegar à conclusão que se nos fosse concedido por um ato mágico a faculdade de modificarmos o passado, faríamos diferente. Porém, como não nos é dada tal condição, só nos resta olharmos pra frente e, usando como inspiração o belo poema de José Régio trazido por você, seguirmos por onde nos levam os nossos passos e, também, os nossos corações!
No mais, até a próxima!
Abraço,
Anitha

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