Ele eclodiu como uma incontrolável erupção vulcânica às cinco e meia, do dia 5 de fevereiro de 2009. Uma madrugada de quinta-feira muito quente e abafada.
Por que o faço? Apesar dele ser tão íntimo, fui
aconselhada a compartilhá-lo para - quem sabe? - auxiliar quem estiver passando pelo difícil tratamento
de quimioterapia. E, também, para poder desmistificar.
Sim, desmitificar, porque passo a impressão de ser sempre forte, de dar conta de todas as situações e por ser considerada arrojada e corajosa.
É! Em circunstâncias normais até pode ser verdade. Entretanto, atualmente, devido a toda excepcionalidade, a qual envolve descoberta, diagnóstico, cirurgia e pós intervenção cirúrgica para a remoção de um câncer de mama invasivo, isso procede em parte.
Foram recomendados, para o meu caso, além das futuras diárias radioterapias, perfazendo um total de 36 sessões, também 16 de quimio a ser feitas, cada uma, num espaço de 21 em 21 dias.
O tratamento teve início em novembro e até aqui já fiz 3 quimioterapias. E, em todas elas, me senti debilitada tanto física como afetiva e psicologicamente. Não sei, se tudo agravou por eu morar só. Só sei com certeza que, nesse estado tão suscetível, o medo, sem avisar, foi se imiscuindo traiçoeiro e impiedosamente!
O tratamento teve início em novembro e até aqui já fiz 3 quimioterapias. E, em todas elas, me senti debilitada tanto física como afetiva e psicologicamente. Não sei, se tudo agravou por eu morar só. Só sei com certeza que, nesse estado tão suscetível, o medo, sem avisar, foi se imiscuindo traiçoeiro e impiedosamente!
Confesso que em todas essas ocasiões quis muito ser amparada e confortada para continuar a voar. Minhas asas estavam sem força até para voos
rasteiros. Mas nem sempre foi possível, por um motivo ou outro.
Meu Deus! Que necessidade de afeto, de
demonstrações claras de validação, amizade e carinho, apesar de dificilmente manifestar de forma verbal essa carência.
Minha sorte é que lá pelo décimo dia, graças ao Bom Pai, me sinto bem novamente e recupero as minhas características inatas. E sou deveras a Anitha destemida, alegre,
otimista, confiante, cheia de energia e alto astral de sempre.
Por essa minha vivência
particular, constato como é interessante a alma humana. É mesmo um mistério decifrável, digamos assim, na
maioria das vezes, através da expressão e da consciência, para os atentos de plantão. Ou por intermédio de catarse. Como se
deu agora, aqui comigo.
Talvez, esse meu desnudar poderá até pôr em evidência o meu
lado B, este que sempre procuro preservar de uma forma muito cuidadosa.É um risco que corro.
Então, faço-lhe um pedido especial. Acolha-me,
por favor, buscando ai dentro de si o seu lado mais sensível e compreensivo para captar o que estou lhe
declarando e, sobretudo, o que contém nas entrelinhas. Se não for pedir muito, sem crítica, por gentileza!
Quero crer que haverá de sua parte boa acolhida e zelo. Tomara!
Então, daqui pra frente é com você.
Beijo,
Anitha
Medo, medo, medo!!!
Este é o meu mais novo inquilino
Reconheço a minha impotência
Para fazê-lo, de mim, desalojar.
Ele está me consumindo
Levando-me ao desespero
Meu sono tirando
Minha paz nem sei mais aonde está.
Ele está sempre presente
Sorrateiramente junto de mim
Mesmo quando faço
Que não o quero ou não o vejo
Medo, medo, medo!!!
Tão atual e tão novo para mim.
Tenho me sentido incapaz.
E refém de todo esse processo.
De fato, estou me sentindo
Incompetente e inábil
Pesa-me não estar apta a melhorar
Essa rotina nauseante.
Tenho muitos amigos.
Mas bem poucos são
Os que se dispõem
De forma genuína e solícita
A amenizar esse meu vazio.
Há àqueles que se apresentam
como se cumprissem um ritual,
Um dever autoimposto.
Digo que não me importo
Mas isso não é verdade.
Alguns aparecem
Mas, assim como vem, desaparecem.
E como nada peço
Continuo solitária.
A verdade nua e crua
É que poucos são os disponíveis,
Com os quais de fato posso contar
Para o que der e vier.
Medo, medo, medo!!!
Que sorrateiramente
Tem debilitado as minhas forças
Que já nem estavam no seu apogeu.
Agora então me encontro
Completamente fragmentada.
Tenho me esforçado
Mas só eu sei, de fato,
O que isso tem me custado.
Portanto, não me peçam coragem
Não me digam que sou valente
Que sairei dessa melhor
Que é vontade de Deus
Ou que logo tudo isso passa.
Também não quero ler depoimentos
Nem saber de vivências de conhecidos
Nem me falem de exemplos
E nem citem os vencedores.
Por favor, escutem
Estou com medo!!!
E ele está me corroendo.
Não falem que sou uma mulher forte
Muito menos sugiram ou exijam
O que não me é possível
Parem com isso
Aceitem esse meu desânimo.
Afinal, não estou dando conta!
Respeitem os meus limites
Esta experiência é minha
Deixem-me vivê-la como eu puder.
Apesar das boas intenções
Não queiram me distrair
Diminuir a importância
Do que está me acontecendo.
Estou com medo, muito medo!!!
Das dores, inclusive, as internas.
Da minha desestrutura
E dessa minha tão pouca resistência.
Medo das minhas urgências
Dos reais sintomas
Das restrições.
De precisar tanto
E ficar assim tão a mercê.
Medo. Ah! Que medo!!!
Eu não queria me sentir
Dessa maneira
Minha sensibilidade tão à flor da pele
Captando o não dito
E rejeitando o estéril carinho de plástico.
Medo da falta de solidariedade
Do meu cansaço
E também dos que me cercam,
Dos dias que passo muito mal.
Medo dos meus pensamentos
Sombrios e desordenados
Da insônia improdutiva
E da falta de motivação.
Medo de julgamento
Da acidez da crítica
De não obter apoio,
Aconchego e nem colo.
Medo de incomodar
De pesar, de refutar
Da não aceitação
Seja ela qual for.
Medo da intolerância
De não ser entendida
Da funesta comparação
De ser inconveniente
De desapontar.
Medo do ridículo, da feiura
De ficar lamentosa e chorosa
Da minha exaustão
Dos meus sentimentos
Alterados e contraditórios.
Medo das perdas que ainda virão
Do que jamais terá retorno.
Do meu rosto entristecido
Que não reconheço mais no espelho
De minha estranheza, da minha careca.
Medo de não ser mais desejada
Do silêncio das pessoas que eu prezo
De me faltar segurança
E de ser rejeitada.
Medo da perda de sentido
De não ter capacidade para lidar
Com as ocorrências do dia a dia
Com as coisas práticas e básicas da vida.
Medo da agressividade do tratamento
De ser preciso repeti-lo
De fazer exames com o coração nas mãos
E esperar, ansiosa, que os resultados deem positivo.
Medo do real desconforto
E dos vários efeitos colaterais.
Medo da minha sensibilidade
De não aguentar a pressão
Da minha insegurança
De cair numa terrível depressão.
Medo do tédio e da angústia
Da crise existencial
De estar chata - e devo estar!!!
Da minha falta de paciência
De tato e jeito.
Medo de perder a fé
De sucumbir
Da doença reincidir
E, por isso, dela morrer.
Medo, até mesmo do medo!!!
Medo de como tudo irá acabar
Do hoje e do futuro
Medo que me péla
Ah! Como estou com medo!!!
Escrito por Anitha em 05/02/09.


5 comentários:
Anitha
Fiquei emocionada ao ver seu blog. Senti, em muitas palavras suas, como se foxxem minhas, em algum momento de minha vida. Hoje, sinto-me um pouco como você diz, ao descrever seu medo. Principalmente, do medo do que virá, quando percebemos que tudo será diferente daqui prá frente. É preciso reconstruir a vida. Isso dá um medo medonho. É preciso mudar tudo, quando mudar um pouco já é difícil. É legal poder falar sobreisso. Desabafa e nos faz entender um pouco a nossa fragilidade. E, principalmente, reconhecê-la. Só posso desejar-te forças. Estou aqui, sentindo muita fragilidade, também, embora de forma diferente. Mas estou aqui e quero estar com você. Embora, muitas vezes, não consiga me manifestar, acompanho seu drama e desejo sua vitória.
Acredito que o medo faz parte de todo esse processo. Eu também já senti muito medo, medo do futuro, medo de fragilidades e de coisas pesadas para carregar sozinha. Por mais que não pareça em algum momento, estou torcendo muito para que você vença o medo e que sua luz continue iluminando a vida de outras pessoas. Desculpe-me pela ausência, da qual me envergonho diversas vezes. Nessas horas todo afeto é pouco. Espero poder ser mais afetuosa para caminhar com você, com sorrisos, não de distração mas de paz.
Quel
SEMPRE ANITHA,
NÃO TENHA MEDO NÃO.
ESTOU AQUI,
A UM TOQUE DOS SEUS DEDOS,
E SE QUISER DO SEU CORAÇÃO.
OLHE.
ESTOU TÃO PERTO,
É SÓ ME CHAMAR...
CARLOS
Anitha,
Voce não me conhece mas eu entendo os seus medos. Há 4 anos atrás acompanhei de perto o tratamento da minha irmã... Foi uma loucura pq. éramos poucos os realmente interessados em abraçar a causa, mas uma coisa eu te falo de coração: Não é porque as pessoas não estão próximas de ti neste momento que elas não se importam com voce. Deus jamais te abandona. Segura na mão dele que ele te conduzirá.
Um forte abraço,
Wilma
Ana Querida!
Visitei seu blog, li seu depoimento, senti de perto a dificuldade dos momentos que você tem vivido.
Sei que o medo é um sentimento terrível! Mas ele faz parte da vida de todos nós, não é? O que peço sempre é que nenhum sofrimento seja em vão. Que sejam processos alquímicos as nossas dores... Concordo com o que diz o Dalai Lama, que "o medo é útil quando nos deixa alerta". Pelo que pude perceber, o medo que a acompanha no percurso neste "campo de espinhos" tem produzido mais que sofrimento em sua vida. A sensibilidade com que você profundamente vive esta experiência, certamente, tem produzido consciência. Exatamente como a história da pérola que você mencionou. Uma pérola de extrema beleza! Pude perceber que você está sentindo a dor de quem passa pela transformação alquímica.
É doído prá gente também ver quem gostamos sofrer. Mas... quando a dor encontra uma pessoa que amamos, se não nos é possivel aliviar seu sofrimento, só nos resta respeitar este momento, esperar que a alquimia produza seus efeitos e que, com isso, a alma possa libertar-se de suas aflições.
Nelson Mandela disse o seguinte:
"Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo."
Um grande abraço da amiga que, apesar de distante, tem por você grande admiração e carinho.
Ana Helena
Postar um comentário
Agradeço-lhe pela visita e por deixar o seu comentário!
Apareça mais vezes!
Beijo,
Anitha